domingo, 26 de abril de 2009

Cartas de Gabriela I

Antes de mostrar as cartas de Gabriela a vocês vou fazer um apanhado sobre quem ela é, ou quem ela nos faz acreditar que é.

Os dias eram longos, mas não o suficiente. As pessoas eram loucas, mas muito normais, as festas eram animadas, mas tediosas. Ela nunca se sentia saciada, completa. Sempre faltava uma peça em se quebra-cabeça e essa fazia uma enorme falta. Mas ela não desistia, Gabriela sempre a procurava em vários lugares diferentes. Já procurara na música, na dança, na arte, nos vícios, nos amores e não a achara. Isso a corroia cada dia um pouco mais, até chegar ao ponto de não aguentar e resolver pegar a mochila e sair - coisa que acontecia ultimamente com uma certa frequencia - acompanhada apenas de canções que a faziam se sentir um pouca mais livre, canções que aliviavam sua procurar. E era assim que ela gostava de sair, acompanhada mas sozinha, sem rumo e com um destino. Tentar explicar aquilo aos outros? Muito complicado. Eles não entendiam porque preferia ir a pé, ela sempre pensava 'Afinal, qual era a graça de ir de ônibus?' Ela não via, gostava de passar por lugares que ela não veria se estivesse naquele monstro de sei lá quantas rodas, nos olhares que perderia se estivesse acima deles. Ela gostava de sair de manhã e só voltar à noite, gostava de quando sua mãe perguntava se ela era doente ou algo de tipo e gostava mais ainda quando ela a proibia de sair, ai sim, ela ia, com mais certeza do que nunca, ela gostava de seu celular desligado e seu mp3 carregado, gostava de chinelos ou tênis que tivessem historias ao final de uma semana e não de calças bem passadas e limpinhas, gostava de passar por situações difíceis e hilariantes que se pareciam com desafios, gostava de quebrar as regras que não faziam sentido em sua cabeça, não gostava de satisfações e talvez por isso não criava vínculos profundos que não pudessem ser quebrados ou esquecidos ao longo das caminhadas, na escola se sentia pressa e limitada e disso, com certeza, Gabriela não gostava. Era tímida e, justamente por isso, adora observar as pessoas que a cercavam, eram como objetos de estudo, ratinhos de laboratório, em labirintos todos em direções diferentes, mas com caminhos tão iguais, para alguns isso soava como frigido mas para ela era o real. Gabriela nunca gostou muito de terminar historias, seus livros nunca chegavam ao fim, suas músicas se estendiam, seus poemas se confundiam, o acabado não era com ela...

Sua mais nova maneira de preencher o tempo era escrever cartas, para elas mesma, para Ele, elas, eles, ninguém... Gostava de ver-la prontas e guardadas, gentilmente, em uma caixa ao fundo de sua gaveta, não muito longe de uns retalhos de anos passados, como blusas pichadas por ex companheiros de manhãs; era nostálgica ao extremo mesmo se mostrando impenetrável e invisível, estabelecia laços imaginários mais prático, como ela mesma era. Inconstante e indefinida. Mas ainda me gera uma grande simpátia... Essa Gabriela...

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